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Um bilhão de gordos

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Postado em 21/02/2009 às 10:00:00 por Carlos de Carvalho

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Um bilhão de gordos



O criador da Obesity Task Force, órgão que monitora o aumento da obesidade no mundo, diz que nenhum governo adotou as medidas corretas para atacar o problema


"Sentimos pena dos famintos mas menosprezamos os obesos. Achamos que eles comem demais porque são fracos"

O professor britânico Philip James tem 64 anos, 1,73 metro de altura e pesa 73 quilos. Ainda assim, luta diariamente contra a obesidade. Não que tenha problemas para afivelar o cinto. Como presidente da International Obesity Task Force (IOTF), organização criada por ele em 1996, seu trabalho é chamar a atenção para o que aponta como um dos maiores problemas do planeta atualmente: uma epidemia de obesidade que há vinte anos não pára de se espalhar. Formado em medicina, James, ironicamente, começou a carreira estudando o oposto de sua atual obsessão: a subnutrição. Foi diretor do Rowett Research Institute, na Escócia, a maior organização de ciências nutricionais do Ocidente, escreveu estudos sobre obesidade para o Royal College of Physicians de Londres e desenvolveu um programa de combate à obesidade para o governo da Inglaterra.

Autor de catorze livros, James assessora governos na criação de leis de nutrição e presidiu a comissão da ONU sobre os desafios nutricionais no século XXI. Líder em pesquisas sobre a influência da obesidade nas doenças, ele prepara um documento, a ser divulgado no ano que vem pela Organização Mundial de Saúde, sobre dieta e prevenção de doenças crônicas. Mas nos últimos dois anos tem freqüentado mais aeroportos que o meio acadêmico – viaja pelo mundo verificando as causas e os danos da obesidade em diversos países, além de auxiliar especialistas internacionais que buscam uma saída de emergência para o problema. Seu próximo desembarque será em São Paulo, onde, de 24 a 29 de agosto, participa do IX Congresso Internacional de Obesidade. Antes de viajar, James conversou com VEJA por telefone de sua casa, em Londres.

Veja – Em 1975, o Brasil tinha de dois a quatro casos de subnutrição para cada caso de obesidade. Em 1996, virou: eram dois casos de obesidade para um de fome. A "globesidade", como o senhor chama, é um problema mais sério que a fome?

James – Existem hoje no mundo 800 milhões de pessoas subnutridas e 1 bilhão de obesos. Isso é assustador. Há vinte anos assistimos a uma epidemia de proporções nunca vistas na história da evolução da humanidade. Não há dúvida de que a fome requer grande atenção política, sobretudo em partes da África, da Índia e da Ásia, onde há imensa pobreza, pessoas abaixo do peso e mortalidade infantil. Mas agora estamos em uma nova fase, a chamada "transição nutricional", que reúne fome e obesidade em um mesmo país, até em uma mesma cidade. E o pior é que os dois problemas são encarados de forma diferente. Dos famintos sentimos pena, nos comovemos com seu desespero. Dos obesos sentimos menosprezo, achamos que comem demais porque são fracos.

Veja – Obesidade é problema maior nos países ricos?

James – Por enquanto, sim, mas isso está mudando. Na prática, as pessoas pobres são mais obesas que as ricas, principalmente na América Latina. As pessoas de baixa renda não têm chance de escolher uma dieta de boa qualidade e de se exercitar fisicamente. Sua alimentação é carregada de gordura e açúcar. Quem cresce lutando contra a fome acaba achando que o mais importante é simplesmente comer. Essas pessoas associam a gordura com riqueza, sonham em ingerir enormes quantidades de carne. Até os programas de governo para erradicar a fome são afetados por essa visão. Não adianta alimentar as pessoas se a comida não for de boa qualidade.

Veja – Nos Estados Unidos, onde problemas decorrentes da obesidade matam 300.000 pessoas por ano, a previdência social precisa destinar a cada mês quase 80 milhões de dólares para o sustento de 137.000 obesos incapacitados para o trabalho. Qual o peso financeiro dessa doença para os governos?

James – Os gastos são incríveis. O governo americano acaba de revelar que o custo anual, direto e indireto, da obesidade no país é de 117 bilhões de dólares, mais do que o das doenças relacionadas ao tabaco. E as cifras aumentam a cada ano. Em geral, os custos diretos do problema em diversos países variam de 2% a 8% do orçamento para a área da saúde. Isso sem contar os obesos que pararam de trabalhar, tornaram-se menos eficientes no trabalho ou morreram cedo, em plena produtividade profissional. O risco de morte prematura dobra para as pessoas obesas.

Veja – Das doenças relacionadas com a obesidade, qual a mais grave?

James – O diabetes é uma das mais terríveis. Por causa da obesidade, pela primeira vez adolescentes estão sendo diagnosticados com uma de suas versões mais sérias, o diabetes tipo 2. Especialistas em pediatria do mundo todo têm me procurado em busca de soluções. Há algumas semanas, visitei uma clínica em Cingapura que há cinco anos tinha quinze casos pediátricos de diabetes tipo 2 e hoje tem sessenta. São crianças condenadas à cegueira, a problemas cardíacos e hepáticos – seu fígado provavelmente vai falhar por volta dos 30 anos. E a expansão do diabetes por causa da obesidade tem ocorrido principalmente na América Latina e na Ásia.

Veja – Como se deve começar a combater a epidemia de obesidade?

James – Até mesmo o governo dos EUA, tido como o mais conservador desde a II Guerra Mundial, acha absurdo que as escolas tenham máquinas de vender refrigerantes, chocolates e biscoitos e, ao mesmo tempo, tentem passar noções de boa alimentação. Quando Tony Blair (o primeiro-ministro inglês) tomou posse, entrei em contato com seus encarregados de saúde pública e educação e mostrei que a alimentação das crianças abaixo de 5 anos na Grã-Bretanha é terrível e que elas costumam passar o tempo livre trancadas em casa, na frente da televisão. E televisão significa, em última instância, falta de exercício físico e apelo a uma alimentação errada.

Veja – Como reverter esse quadro?

James – Cabe a nós, individualmente ou por meio de órgãos independentes, documentar e analisar o problema. Para os governos, é difícil agir contra a indústria alimentícia. Não é como as fábricas de cigarros, às quais se pode acusar de fazer mal à população e pronto. Todos nós precisamos de comida – a questão é comer bem. E isso raramente acontece. Os alimentos do tipo fast food estão cada vez mais baratos. O preço mundial do açúcar, da gordura, dos óleos é muito baixo. Em conseqüência, seu consumo só faz aumentar, sobretudo nas camadas de mais baixa renda.

Veja – Recentemente, um nova-iorquino de 125 quilos processou quatro redes de restaurantes fast food, alegando que, até ter o segundo ataque cardíaco, não havia se dado conta de que uma dieta à base de hambúrguer, milk-shake e batatas fritas não era saudável. Esse processo faz sentido?

James – Essas redes são, sim, parte do problema. Processá-las é a maneira tipicamente americana de lidar com a questão, mas também significa que as pessoas estão realmente começando a dar atenção ao assunto. Os restaurantes fast food manipulam as crianças e os adultos. Eu não aconselho ninguém a comprar o que eles vendem.

Veja – Até que ponto a genética é responsável pela obesidade?

James – Apenas uma pequena proporção de casos envolve diretamente os genes. Isso fica claro na rapidez com que o problema da obesidade explodiu. Não é possível que os genes de todo mundo tenham mudado. O que mudou foi o ambiente que nos cerca.

Veja – Há alguns anos, o Brasil introduziu a obrigatoriedade de etiquetas indicando os valores nutricionais nas embalagens de produtos alimentícios. Isso torna as pessoas mais conscientes do que comem?

James – Essas etiquetas são inúteis. O máximo que se consegue é comparar diferentes etiquetas no mesmo produto e ver qual tem menos sal e gordura. Há doze anos, a Organização Mundial de Saúde desenvolveu um sistema de etiqueta por meio do qual seríamos efetivamente capazes de diferenciar as comidas boas das ruins. Nenhum governo teve a coragem de implantá-lo. Quando os nutricionistas dizem que não existe comida boa e ruim, e sim boas e más dietas, estão fazendo o jogo da indústria alimentícia. Essa história de que a pessoa pode, sim, comer aquele chocolate ou tomar aquele refrigerante, desde que saiba balancear o consumo, é apenas uma maneira de deixar a indústria agir como quiser.

Veja – Sempre se diz que, quando enfrentam problemas, a tendência das pessoas é comer mais. Qual a relação entre psicologia e obesidade?

James – É verdade que algumas pessoas descontam os problemas na comida. Mas dizer que obesos são indivíduos perturbados psicologicamente é ridículo. Na maioria das sociedades, ser gordo é visto como uma coisa feia. Além disso, ao engordar muito as pessoas ficam sem ar, sentem dor nas costas, os joelhos dão trabalho. As mulheres são as maiores vítimas: a sociedade impõe que, para serem sexy, têm de ser magras como as modelos de revista, que, por sua vez, para chegar ao peso-pluma, normalmente fumam e usam drogas para não sentir fome. Mas os homens também sofrem. Em diversos países, policiais, bombeiros, militares e pilotos têm de mudar de profissão se engordam muito.

Veja – Como a obesidade afeta a vida sexual das pessoas?

James – O tema é interessante e ainda não foi muito explorado. Quando mulheres se tornam obesas, seu equilíbrio hormonal muda drasticamente. As células produzem menos hormônios sexuais femininos, o ciclo menstrual fica irregular e algumas se tornam estéreis. Já a atividade sexual, propriamente, está mais ligada a aspectos culturais. Na Nigéria, gordura simboliza riqueza e saúde – o que, para eles, é sexualmente muito atraente. Na Inglaterra, por outro lado, quando uma mulher obesa perde muitos quilos, sua personalidade muda: ela fica mais cheia de energia e aumenta a atividade sexual.

Veja – Faz trinta anos que o doutor Robert Atkins é criticado pela comunidade médica por pregar que as pessoas podem comer gordura e mesmo assim emagrecer. Há poucos meses, Walter Willett, presidente do Departamento de Nutrição da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard, divulgou uma pesquisa mostrando que a dieta pobre em gordura não é necessariamente mais saudável. O que o senhor acha?

James – Trata-se de um assunto muito sensível. Willett diz que o problema não é a gordura, e sim o carboidrato – ou melhor, o refinamento do carboidrato, processo em que o setor alimentício remove todas as fibras dos alimentos. No começo deste ano, revisamos a questão na Organização Mundial de Saúde, analisamos o trabalho de Willett e concluímos que a dieta de Atkins é um truque inteligente: ao cortar uma série de alimentos, faz as pessoas efetivamente comer menos e conseqüentemente emagrecer. Mas a quantidade de gordura que ingerem pode levar a problemas cardíacos e diabetes. O único objetivo de Atkins é a perda de peso. Ele ganhou rios de dinheiro e as pessoas perderam peso. A questão é: como viver muito tempo, de maneira saudável? Resposta: mantendo uma dieta rica em carboidratos que não contenham açúcar, bastante grãos, cereais, frutas e vegetais e pobre em sal.

Veja – Qual a sua opinião sobre os remédios para emagrecer?

James – Não resolvem. Nossa mente é programada para não morrermos de fome, não para combatermos a obesidade. Quando estamos acima do peso e tentamos emagrecer, ela diz: "Espere aí, estou gostando desses 10 quilos extras de gordura". Já, ao emagrecer rápido, a mente recebe um sinal como se a pessoa estivesse literalmente morrendo de fome. Por isso, sempre repito: é mais importante prevenir o problema que deixar chegar a esse ponto.

Veja – Uma busca pela palavra "dieta" no site Amazon.com resulta em quase 3.000 livros. Para "perda de peso" aparecem mais de 1.600 publicações. Esses livros adiantam alguma coisa? Ou as pessoas costumam lê-los saboreando um chocolate?

James – A experiência de ser magro é individual. Não adianta emagrecer e depois voltar para os antigos hábitos. Educação nutricional não é resposta para o problema. Muito mais fundamentais são as mensagens passadas pela televisão e a aplicação de regras de boa alimentação nas escolas.

Veja – Que medidas já foram adotadas que podem servir de exemplo para todos?

James – Na Finlândia, o custo dos legumes nos restaurantes está incluído na refeição e não se paga extra por eles. Saladas são à vontade e grátis. Com isso, o consumo de hortaliças no país triplicou. O programa finlandês de melhora nutricional é o mais eficaz já visto no mundo.

Veja – Qual a melhor receita preparada por sua esposa?

James – Um prato de peixe acompanhado de quatro tipos de legume. Aliás, como dez porções de legumes e verduras por dia. Minha dieta tem apenas 20% de gordura, quase não como açúcar, raríssimas vezes usamos alimentos prontos. Nós mesmos cozinhamos. Na minha casa, onde moramos eu e minha mulher, 1 litro de óleo dura nove meses; meio quilo de açúcar, quase um ano. Nem por isso assustamos as pessoas – sempre temos visitas para o jantar.



 
 
 
 
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