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Sexualidade e Ca de mama

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Postado em 01/09/2010 às 19:28:49 por Monica Leite Grinbaum

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Sexualidade da mulher com Ca de mama- abordagem médica e psicológica

         Mônica Leite Grinbaum – médicaginecologista

        Claudia Barroso - psicóloga

O câncer de mama tem sido tema de muitos debates no meio médico, entre os órgãos governamentais e em toda a sociedade, no sentido, acima de tudo, de reduzir a incidência e de melhorar tratamento e sobrevida. Este artigo se propõe a uma reflexão  livre entre dois saberes - médico e psicológico – convidando o leitor a pensar na mulher de uma forma mais humana. O resultado é a possibilidade de reconhecer a portadora de Ca de mama em sua totalidade - física e psíquica  aumentando em muito a possibilidade  de resgatar não só a sua saúde física, mas também  o equilíbrio mental e consequentemente sua satisfação sexual.

 

Ponto de vista do médico

 

            A sexualidade feminina é um capitulo de grande importância na ginecologia e tem ganhado cada vez mais espaço no consultório daquele ginecologista que é bom ouvinte das suas pacientes. Nem sempre o medico tem esse tempo na sua consulta ou não gosta de abordar o tema ou não está preparado pra isso. A mulher de hoje, por outro lado, pensa e se expressa mais do que aquela mulher de décadas passadas e quer a escuta do médico que procura; ela tem acesso a todo tipo de mídia e está mais alerta às mudanças do mundo contemporâneo, de forma que não aceita mais uma vida de eterna resignação, mas busca qualidade, ainda que pra ela isso possa ser utópico. Quando se fala de qualidade de vida, implica em se falar de sexualidade.

            A resposta sexual humana é um fenômeno complexo, que depende do equilíbrio entre os aspectos bio-psico-social, de modo que a presença de uma doença debilitante como o câncer de mama a compromete em todas as instâncias. A resposta sexual é composta do desejo, excitação e orgasmo e depende da liberação de substâncias neurotransmissoras como dopamina, serotonina e noradrenalina, entre outras, importantes na efetivação do prazer sexual.

            Uma mulher na sua plenitude física e psíquica, normalmente enfrenta dificuldades na esfera sexual ao longo da vida, sofrendo com questões básicas do sexo em si ou com questões mais complexas de relacionamento com o parceiro. No caso da existência de um câncer em um órgão tão representativo da sexualidade como a mama, o distúrbio na esfera sexual surge após uma sequência de perdas: mutilação de um órgão sexual, perda do equilíbrio neuroendócrino causado pela quimioterapia, perda do status hormonal causado pelos tratamentos adjuvantes que levam à menopausa precoce, perda da auto-estima, perda da libido, da capacidade de excitação e de orgasmo. Trata-se de um momento difícil no mundo psíquico desta mulher, o qual pode ser administrado e resolvido, se ela estiver comprometida com uma equipe médica multidisciplinar, com os seus familiares e, acima de tudo, com um parceiro.

            No passado, a abordagem desses casos era meramente objetiva, através da resolução cirúrgica e seguimento com quimioterapia e/ou hormonioterapia, preocupando-se, é claro, com a maior margem possível de sobrevida. Hoje, a paciente é tratada normalmente em serviços especializados e com atenção de vários profissionais da saúde, para que as diferentes dificuldades possam ser resolvidas e a pessoa possa ser então amplamente acolhida. Apesar dessa possibilidade de atendimento, muitas pacientes não a utilizam da melhor forma, seja por desconhecimento, seja por falta de acesso ou por aspectos depressivos, mantenedores da reclusão. Em muitos casos, a paciente cumpre tão somente a presença nas sessões de quimioterapia e nas consultas de seguimento com o oncologista ou mastologista, pois tem medo da recidiva e eventualmente mantém a rotina com o ginecologista. È esse o profissional que tem talvez um acesso mais fácil a essa mulher, que é capaz de incentivá-la a voltar a viver intensamente e procurar de volta a sexualidade perdida. A paciente normalmente leva para o médico as suas queixas mais objetivas, como o ressecamento vaginal, por exemplo. Nesse momento é possível que essa paciente até revele as suas dificuldades, frustrações e medos e solicite alguma indicação de tratamento  psicoterápico, mas esse não é o tipo de caso mais comum na rotina dos consultórios. O que mais se vê são aquelas que se resguardam e que realmente necessitam de uma cuidadosa intervenção.  Poucas são as mulheres que assumem a doença de forma mais aberta e transforma a sua vida a partir da mesma.

 A intervenção do ginecologista, que na maior parte dos casos é o primeiro contato da paciente, se faz muito importante. Através de uma escuta atenta, o médico consegue ajudá-la, seja no seu próprio consultório, seja em parceria com outros profissionais, aproveitando a janela de oportunidade para o resgate da sexualidade dessa mulher. O tratamento básico inicial com lubrificantes vaginais e orientações focais de terapia sexual são opções interessantes de grande valia, mas não se bastam. Sabemos que a libido é reflexo do equilíbrio do mundo mental, que em muitos casos nunca existiu. Por maiores que sejam os problemas a serem resolvidos na esfera da doença oncológica, é importante abrir a perspectiva de uma psicoterapia para a paciente, pois através de um trabalho psicoterápico bem direcionado, ela ganha força para o enfrentamento da doença e até melhora a auto-estima, passando aos poucos a ter prazer com muitas coisas na vida, inclusive com o sexo.

 

Ponto de vista do psicólogo

 

 Relação entre esquema corporal e representação psíquica do corpo

Para entendermos melhor esta proposta precisamos trabalhar primeiro algumas premissas. Vamos começar pensando que o corpo é um utensílio que utilizamos como mediador organizado entre o sujeito (físico e psíquico) e o mundo. Assim, concluímos rapidamente que tudo que experimentamos no mundo real compartilhado com os outros depende da integridade do organismo ou até mesmo de suas lesões (transitórias ou indeléveis). Além disso, depende das suas estruturas neurológicas, musculares e ósseas e também das sensações fisiológicas. Poderíamos assim, também concluir rapidamente, que um esquema corporal saudável pressupõe uma representação psíquica saudável e operante do mesmo, ou seja, um correspondente mental à altura. Mas a prática não se dá bem assim.

É fato que o esquema corporal é basicamente o mesmo para todos os indivíduos da raça humana, o que não acontece com seu representante psíquico, que é peculiar a cada um e está diretamente ligada ao sujeito e à sua história. Falando de uma maneira bem sucinta e simplificada, é nas experiências mais primitivas de satisfação e privação que o bebê aprende a lidar com suas frustrações, e é na interação com o outro (neste momento basicamente a mãe) que ele terá a possibilidade de desenvolver sua percepção de mundo e construir um aparelho psíquico que comporte todos os objetos internalizados nesta relação. A construção da auto-imagem está diretamente ligada às suas experiências nesta fase de vida.

Este tema tem sido largamente abordado por vários estudiosos importantes e as suas teorias são amplamente aceitas e utilizadas nas práticas psicoterápicas. Uma das mais conhecidas é a teoria do estágio do espelho de Jacques Lacan. Para ele a fase do espelho tem início por volta dos 6 meses de idade e termina em torno dos 18 meses, na qual a criança forma uma representação de sua unidade corporal por identificação com a imagem do outro. É o desenvolvimento adequado do esquema corporal através do seu processo de maturidade neurológica e física e também das experiências às quais este esquema corporal é submetido no mundo real que permite ao bebê sua interação com este outro e com o mundo.

Agora sim podemos concluir que o esquema corporal está intimamente vinculado à formação do seu representante psíquico e vice-versa, mas que esta vinculação não garante similaridade entre eles e muito menos uma perfeita co-relação.

Deparamos cotidianamente nos consultórios com esquemas corporais perfeitos e imagem psíquica do corpo compatível, mas também encontramos esquemas corporais perfeitos e imagem psíquica perturbada, esquema corporal doente (temporário ou definitivo) e imagem psíquica compatível e esquema corporal doente e imagem psíquica do corpo sã.

Tantas possibilidades se tornam ainda mais complexas quando consideramos que elas são encontradas em graus diferentes nas pessoas e às vezes totalmente desconectadas no tempo. As representações psíquicas podem se referir a apenas partes do corpo ou ao corpo por inteiro: um corpo adulto com um esquema corporal adulto e maduro não é garantia de um representante psíquico da mesma idade.  Temos que considerar também que existem doenças físicas temporárias e outras definitivas onde o esquema representativo se esforça para acompanhar tais mudanças ou, num movimento oposto, as doenças mentais graves que interferem diretamente no funcionamento de um esquema corporal notadamente saudável. Além disso, lidamos com doenças que não deixam necessariamente marcas no esquema corporal e que podem implicar no uso de uma medicação para a vida toda, significando assim uma possível marca no seu correspondente psíquico. Outra possibilidade a considerar é que ocorrências físicas podem apenas deixar cicatrizes físicas que não prejudiquem o funcionamento do esquema corporal e que poderão ter , mesmo assim, seu correspondente psíquico.

Entende-se, então, esta correspondência não é direta e nem constitui efetivamente um “outro” real. É sim a representação da idéia que o sujeito tem do corpo que possui e, mais ainda, das possibilidades de utilização deste corpo na sua relação com o mundo. Assim, uma cicatriz no rosto pode tanto significar um golpe fatal na vaidade e auto-estima de uma mulher, o que irá determinar sobremaneira a forma dela se relacionar com o mundo, como pode representar orgulho e glória para um herói de guerra. São inúmeras as possibilidades e cada uma deve que ser vista e tratada de maneira individualizada.

 

Esquema corporal, representação psíquica do corpo e o câncer de mama

O câncer de mama talvez seja tão perigoso psiquicamente quanto o é fisicamente. Para além das implicações que seu tratamento físico pode acarretar, temos que considerar responsavelmente como é que ele estará afetando o seu correspondente psíquico. Lembrando que não sabemos de antemão se seu correspondente psíquico faz jus ao seu par físico, o que colabora ainda mais para a complexidade do quadro. Também não sabemos de antemão que uso esta mulher faz desta dupla “seio representação psíquica versus seio físico” e nem qual é a carga emocional que vem a reboque. Seio, representação de feminilidade, de opulência, de alimento, de vida, de sensualidade, poder, pecado, culpa ou submissão? Não sabemos. A lista é interminável, porque cada mulher terá sua própria combinação. Apenas o trabalho psicoterapêutico sério e sistemático poderá responder.

E a idéia de um seio fisicamente doente num corpo representado psiquicamente e potencialmente doente pode acarretar uma alteração significativa no estado mental da paciente e/ou no seu equilíbrio psíquico. Para a representação psíquica do corpo a simples extirpação do órgão adoecido não significa ter se livrado de todo o mal. Se a relação entre os dois corpos não for sadia, a doença permanecerá “dentro” do aparelho psíquico mesmo depois do corpo “físico” ter sido considerado curado, causando um efeito tão mortal quanto a própria doença o era. 

Agora fica mais fácil pensar na grande dificuldade que éentendero processo pelo qual passa uma paciente com o diagnóstico de câncer de mama. Fica mais fácil entender que para a paciente, diferente do que acontece para o médico, não importa necessariamente a gravidade do câncer, se foi um diagnóstico precoce, ou se o prognóstico é favorável ou não. Todos estes aspectos serão mais ou menos importantes numa relação direta com sua saúde psíquica, em sintonia com seu momento de vida, aliado à sua condição financeira, afetiva, emocional e familiar. Além disso, temos que considerar sua relação com o próprio corpo e qual o uso que faz dele (poder, sedução, submissão,...), sua relação com seu parceiro, sua idade e momento profissional. Nunca será uma equação simples, mas também não é impossível.

Conclusão

O suporte médico, em todas as suas instâncias, aliado a um atendimento psicológico, garantirá maior compreensão do diagnóstico, maior aceitação do processo, maior adesão ao tratamento e melhor convivência com os possíveis desdobramentos do caso como uma internação, uma cirurgia e/ou uma terapia medicamentosa. Só assim ela terá garantida a possibilidade de uma re-construção harmoniosa entre sua nova condição física e sua tão cara imagem corporal , aspectos fundamentais para o equilíbrio da vida sexual.

 

Referências:

  1. MASTER HW, JOHNSON VE. A resposta sexual humana. São Paulo: Roca, 1984.
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  3. DOLTO,F. , A imagem inconsciente do corpo, São Paulo, Perspectiva, 2004
  4. GARCIA-ROZA,L.A.,Freud e o inconsciente, Rio de Janeiro, Jorge         Zahar,2005
  5. JULIEN,P., Psicose, perversão, neurose:  a leitura de Jacques Lacan, Rio de       Janeiro , Companhia de Freud, 2002
  6. KLEIN,M. Inveja e Gratidão e outros trabalhos, Rio de Janeiro, Imago, 1991
  7. KLEIN,M. A psicanálise de crianças , Rio de Janeiro, Imago, 1997
  8. LACAN,J., Seminário, livro 1 . Rio de Janeiro, Jorge Zahar
  9. LACAN,J., Seminário, livro 11 , Rio de janeiro, Jorge Zahar
  10. VIEIRA,T.R (org.). Bioética e Sexualidade, São Paulo, Jurídica Brasileira, 2004
 
 
 
 
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